�Como é que vai ser isso?� (cf. Lc 1,34). Esta pergunta de Maria, feita depois do anúncio do anjo, teve como resposta: �Nada é impossível a Deus�. E, como prova disso, o anjo citou o exemplo de Isabel, que, na sua velhice, tinha concebido um filho. Maria acreditou e tornou-se a Mãe do Senhor. Onipotente: este nome de Deus é frequentemente encontrado na Sagrada Escritura e é usado quando se deseja exprimir o seu poder de abençoar, julgar, dirigir o curso dos acontecimentos, realizar os seus desígnios. Existe apenas um limite à onipotência de Deus, a liberdade humana, que pode se opor à vontade de Deus, tornando o ser humano impotente, ao passo que ele foi chamado a compartilhar a mesma força de Deus.
�Nada é impossível a Deus�.
É uma Palavra que nos abre a uma confidência ilimitada no amor de Deus-Pai, pois, se Deus existe e o seu ser é Amor, a confiança completa Nele nada mais é do que uma conseqüência lógica disso. Todas as graças, temporais e espirituais, possíveis e impossíveis, estão em seu poder. E Ele as dá a quem as pede e até mesmo a quem não pede, porque, como diz o Evangelho, Ele, o Pai, �faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons� (cf. Mt 5,45) e convida todos nós a agirmos como Ele, com o mesmo amor universal, sustentado pela fé em que:
�Nada é impossível a Deus�.
Como podemos, então, colocar em prática essa Palavra na vida diária? Todos nós, de vez em quando, temos de enfrentar situações difíceis, dolorosas, tanto na nossa vida pessoal quanto nos relacionamentos com os outros. E, algumas vezes, experimentamos toda a nossa impotência, pois percebemos que existem em nós apegos a coisas e pessoas que nos tornam escravos de amarras das quais gostaríamos de nos libertar. Frequentemente, nós nos vemos diante dos muros da indiferença e do egoísmo, e nos sentimos sem forças ante acontecimentos que parecem maiores do que nós. Pois bem, nesses momentos, a Palavra de Vida pode vir em nossa ajuda. Jesus nos deixa experimentar a nossa incapacidade, não para nos desencorajar, mas para nos ajudar a entender melhor que �nada é impossível a Deus�; para nos preparar a fim de experimentarmos a extraordinária potência da sua graça, que se manifesta justamente quando constatamos que, com as nossas pobres forças, nada vamos conseguir.
�Nada é impossível a Deus�.
Ao nos relembrarmos disso nos momentos mais críticos, a Palavra de Deus nos mandará aquela energia que ela encerra, fazendo-nos participar de algum modo da própria onipotência de Deus. Porém, com uma condição: que vivamos a sua vontade, procurando irradiar ao nosso redor aquele amor que foi depositado em nossos corações. Assim estaremos em uníssono com o Amor onipotente de Deus pelas suas criaturas, para o qual tudo aquilo que contribui para a realização dos seus planos, em cada pessoa e em toda a humanidade, é possível. Mas existe um momento especial em que podemos viver essa Palavra e experimentar toda a sua eficácia: é durante a oração. Jesus disse que qualquer coisa que pedirmos ao Pai em seu nome, Ele nos concederá. Portanto, experimentemos pedir-lhe aquilo que mais desejamos ou necessitamos, com a certeza de fé que a Ele nada é impossível: da solução dos casos mais desesperadores até a paz no mundo; da cura de doenças graves até a solução de conflitos familiares e sociais. E se formos duas ou mais pessoas, unidas em pleno acordo pelo amor mútuo, a pedir a mesma coisa, então será o próprio Jesus em nosso meio quem pedirá ao Pai; e, como Ele prometeu, obteremos o que pedirmos. Certo dia, também nós pedimos, com essa fé na onipotência de Deus e no seu Amor, que o tumor diagnosticado em N., por meio de uma radiografia, �desaparecesse�, como se fosse um erro ou um fantasma. E, de fato, isso aconteceu. Essa confiança ilimitada, que faz com que nos sintamos nos braços de um Pai ao qual tudo é possível, deve acompanhar sempre os acontecimentos da nossa vida. Isso não significa que toda vez obteremos aquilo que pedirmos, porque a onipotência de Deus é a de um Pai, e Ele a usa tão somente para o bem de seus filhos, tenham eles consciência disso ou não. O importante é vivermos alimentando a certeza de que para Deus nada é impossível. E isso nos fará provar uma paz que nunca experimentamos antes.
PALAVRA DE VIDA - Chiara Lubich
Novembro 2010 (originalmente em nov 1999)
Amor e Espiritualidade
�Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.� (Mt 5,8)
A pregação de Jesus tem início com o sermão da montanha. Numa colina próxima de Cafarnaum,
às margens do lago de Tiberíades, sentado, como era costume entre os mestres, Jesus anuncia às multidões quem é bem-aventurado. No Antigo Testamento, frequentemente se usava a palavra �feliz� para exaltar a pessoa que cumpria, dos modos mais variados, a Palavra do Senhor.
As bem-aventuranças que Jesus anunciava repetiam, em parte, aquelas que os discípulos já conheciam; mas, pela primeira vez, eles ouviam dizer que os puros de coração não só eram dignos de subir ao monte do Senhor (cf. Sl 24,4), como cantava o salmo, mas podiam até mesmo ver a Deus. Qual seria, então, essa pureza tão sublime a ponto de merecer tanto? Jesus explicaria isso várias vezes no decorrer de sua pregação. Vamos procurar segui-lo para chegar à fonte da autêntica pureza.
�Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.�
Para Jesus, antes de mais nada, existe um meio excelente de purificação: �Vós já estais limpos por causa da Palavra que vos falei� (Jo 15,3). Não são tanto as práticas de rituais que purificam a alma, mas a sua Palavra. A Palavra de Jesus não é como as palavras humanas. Cristo está presente nela, assim como, embora de outro modo, está presente na Eucaristia. Pela Palavra, Cristo entra em nós e, na medida em que a deixarmos agir, nos torna livres do pecado e, consequentemente, puros de coração.
A pureza, portanto, é fruto da Palavra vivida, de todas aquelas Palavras de Jesus que nos libertam dos chamados apegos, nos quais invariavelmente caímos se não temos o coração fixo em Deus e nos seus ensinamentos. Podem ser apegos às coisas, às criaturas ou a nós mesmos. Mas se o coração está voltado somente para Deus, perdemos o interesse por todo o resto.
Para obter êxito nessa tarefa, pode ser útil repetir a Jesus, a Deus, durante o dia, a invocação do salmo: �És tu, Senhor, o meu único bem� (cf. Sl 16,2). Experimentemos repeti-la frequentemente e, sobretudo, quando os diversos apegos ameaçarem arrastar o nosso coração para imagens, sentimentos e paixões que podem ofuscar a visão do bem e nos privar da liberdade.
Somos levados a olhar certas publicidades, a assistir a certos programas de televisão? Não. Digamos: �És tu, Senhor, o meu único bem�, e esse será o primeiro passo que nos fará sair de nós mesmos, ao redeclararmos o nosso amor a Deus. Desse modo, teremos crescido em pureza.
Percebemos, às vezes, que uma pessoa ou uma atividade se interpõe, como um obstáculo, entre nós e Deus, poluindo o nosso relacionamento com Ele? É o momento de repetir-lhe: �És tu, Senhor, o meu único bem�. Isso nos ajudará a purificar as nossas intenções e a reencontrar a liberdade interior.
�Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.�
A Palavra vivida nos torna livres e puros porque é amor. É o amor que purifica, com o seu fogo divino, as nossas intenções e todo o nosso íntimo, pois, na linguagem bíblica, o �coração� é a sede mais profunda da inteligência e da vontade.
Mas, existe um amor que é um mandamento de Jesus, que nos permite viver essa bem-aventurança. É o amor mútuo, o amor de quem está pronto a dar a vida pelos outros, a exemplo de Jesus. Esse amor, pela presença de Deus � o único que pode criar em nós um coração puro (cf. Sl 51(50),12)�, cria uma corrente, um intercâmbio, uma atmosfera cuja nota dominante é justamente a transparência, a pureza. É vivendo o amor recíproco que a Palavra age com seus efeitos de purificação e de santificação.
A pessoa isolada não consegue resistir por muito tempo às solicitações do mundo; enquanto que, no amor mútuo, encontra o ambiente sadio capaz de proteger a sua pureza e toda a sua autêntica vida cristã.
�Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.�
Eis o fruto dessa pureza, sempre reconquistada: pode-se �ver� a Deus, ou seja, pode-se entender a sua ação na nossa vida e na história, �ouvir� a sua voz no nosso coração, reconhecer a sua presença onde ela se encontra: nos pobres, na Eucaristia, na sua Palavra, na comunhão fraterna, na Igreja.
É como saborear antecipadamente a presença de Deus, começando já nesta vida, caminhando �pela fé e não pela visão� (2Cor 5,7), até quando �o veremos face a face� (1Cor 13,12) por toda a eternidade.
PALAVRA DE VIDA - Chiara Lubich
Outubro 2010
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22, 39).
Esta frase já existia no Antigo Testamento (Lv 19, 18) . Mas, para responder a uma pergunta traiçoeira, Jesus integra-se na grande tradição profética e rabínica que procurava o princípio unificador da Torah, isto é, do ensinamento de Deus contido na Bíblia. O Rabi Hillel, um seu contemporâneo, tinha dito: «Não faças ao teu próximo aquilo que é odioso a ti; nisto está toda a lei» (Shabb. 31a) .
Para os mestres do Judaísmo, o amor ao próximo derivava do amor a Deus, que criou o homem à Sua imagem e semelhança. Por isso, não se pode amar a Deus sem amar a Sua criatura: este é o verdadeiro motivo do amor ao próximo, e é «um grande princípio geral na lei» (Rabi Akiba, Slv 19, 18) .
Jesus reforça esse mesmo princípio e acrescenta que o mandamento de amar o próximo é semelhante ao primeiro e maior mandamento, que diz para amar a Deus com todo o coração, a mente e a alma. Ao confirmar uma relação de semelhança entre os dois mandamentos, Jesus liga-os definitivamente. E toda a tradição cristã manteve esta ligação, como dirá de forma lapidar o apóstolo João: «Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê» (1 Jo 4, 20) .
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22, 39) .
E "próximo" � como afirma claramente todo o Evangelho � é cada ser humano, homem ou mulher, amigo ou inimigo, a quem se deve respeito, consideração, estima. O amor ao próximo é, ao mesmo tempo, universal e pessoal. Abraça toda a Humanidade e concretiza-se naquele-que-está-junto-de-nós.
Mas quem é que nos pode dar um coração tão grande? Quem é que pode suscitar em nós uma benevolência tal que faça considerar nossas amigas � que nos estão próximas � até pessoas que nos são completamente estranhas. Ou que nos leve a ultrapassar o amor por nós mesmos, para nos vermos reflectidos nos outros? É uma dádiva de Deus, ou melhor, é o próprio amor de Deus, que «foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Rm 5, 5) .
Por isso, não é um amor qualquer, uma simples amizade, ou apenas filantropia, mas é aquele amor que foi derramado nos nossos corações desde o nosso baptismo. Um amor que é a vida do próprio Deus, da Santíssima Trindade, e de que nós podemos participar. Portanto, o amor é tudo. Mas, para o podermos viver bem, é necessário conhecer as suas qualidades, descritas no Evangelho e nas Escrituras em geral.
Parece-nos poder resumir os seguintes aspectos fundamentais:
Antes de mais nada, Jesus, que morreu por todos, amando todos, ensina-nos que o verdadeiro amor é aquele que é dirigido a todos. Não é como o amor que nós vivemos muitas vezes, simplesmente humano, e que tem um alcance muito restrito: a família, os amigos, os vizinhos... O amor verdadeiro, que Jesus quer, não admite discriminações. Não distingue a pessoa simpática da antipática. Aqui não existe o bonito ou o feio, o grande ou o pequeno. Para este amor não existe aquele que é da minha pátria ou o estrangeiro, o da minha Igreja ou de uma outra, da minha religião ou de uma outra. Este amor ama a todos. E é assim que nós devemos fazer: amar a todos.
Além disso, o amor verdadeiro é o primeiro a amar, não espera por ser amado, como acontece em geral com o amor humano em que só se amam aqueles que nos amam. Não, o amor verdadeiro toma a iniciativa, como fez o Pai quando, sendo nós ainda pecadores � portanto, pessoas que não amavam �, mandou o seu Filho para nos salvar.
Portanto: amar a todos e sermos os primeiros a amar.
E ainda, o amor verdadeiro vê Jesus em cada próximo: «Foi a mim que o fizeste» (cf. Mt 25, 40) , dir-nos-á Jesus no Juízo Final. E isto é válido tanto para o bem que fizermos como para o mal, infelizmente.
O amor verdadeiro ama o amigo e também o inimigo. Faz-lhe o bem e reza por ele. Jesus quer também que o amor � que Ele trouxe à Terra � se torne recíproco: que nos amemos uns aos outros, até se chegar à unidade. Todas estas qualidades do amor fazem-nos compreender e viver melhor a Palavra de Vida deste mês.
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22, 39) .
Sim, o amor verdadeiro ama o outro como a si mesmo. E isto deve ser tomado à letra. É preciso ver no outro, realmente, a nossa imagem, e fazer ao outro aquilo que faríamos a nós mesmos. O amor verdadeiro é aquele que sabe sofrer com quem sofre, alegrar-se com quem se alegra, carregar os pesos dos outros. Que � como diz S. Paulo � sabe fazer-se um com a pessoa amada. É um amor, não apenas de sentimentos, ou de palavras bonitas, mas de factos concretos.
Aqueles que têm uma crença religiosa diferente também procuram fazer assim, através da chamada "regra de ouro" � que se encontra em todas as religiões � e que aconselha a fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem a nós. Gandhi explica-a de um modo muito simples e eficaz: «Não posso fazer-te mal sem me ferir a mim próprio» (cf. Wilhelm Muhs, Parole del cuore, Milão 1996, p. 82) .
Este mês, então, deve ser uma ocasião para pôr de novo em relevo o amor ao próximo que, assim, adquire muitos rostos: o vizinho de casa, a colega da escola, o amigo ou o parente mais chegado. Mas tem também os rostos daquela Humanidade angustiada, que a televisão traz até às nossas casas, de lugares onde há guerra ou catástrofes naturais. Antigamente, eram-nos desconhecidos e distavam de nós milhares de quilómetros. Agora, até eles se tornaram nossos próximos.
O amor sugerir-nos-á, momento a momento, o que fazer, e dilatará pouco a pouco o nosso coração até à medida do coração de Jesus.
PALAVRA DE VIDA - Chiara Lubich
Setembro 2010
"Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete" [Mt 18, 22]. (1)
É com estas palavras que Jesus responde a Pedro. Ele, depois de ouvir Jesus dizer coisas maravilhosas, perguntou-lhe: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe devo perdoar? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete».
Provavelmente, Pedro, sob a influência da pregação do Mestre, tinha pensado � bom e generoso como era � em lançar-se a fazer uma coisa que já lhe parecia excepcional, isto é, chegar a perdoar até sete vezes. (...)
Mas Jesus, ao responder: «... até setenta vezes sete», mostra que, para Ele, o perdão deve ser ilimitado: é preciso perdoar sempre.
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete».
Esta Palavra faz recordar o canto bíblico de Lamec, um descendente de Adão: «Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete» (2). E assim começou a alastrar o ódio no relacionamento entre as pessoas do mundo inteiro, aumentando como as cheias de um rio. A este alastrar do mal, Jesus opõe o perdão sem limites, incondicional, capaz de quebrar o círculo da violência.
O perdão é a única solução para impedir a desordem e garantir à humanidade um futuro que não seja a sua autodestruição.
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete».
Perdoar. Perdoar sempre. Mas o perdão não é o esquecimento, que, muitas vezes, pode significar não querer olhar de frente a realidade. O perdão não é fraqueza, isto é, menosprezar uma injustiça, por medo do mais forte que a cometeu. O perdão não consiste em declarar sem importância aquilo que é grave, ou chamar bem àquilo que é mal.
O perdão não é indiferença. O perdão é um acto de vontade e de lucidez, e, por isso, de liberdade. Consiste em aceitar o irmão ou a irmã tal como é, apesar do mal que nos fez, do mesmo modo que Deus nos recebe, a nós pecadores, apesar dos nossos defeitos. O perdão consiste em não responder à ofensa com a ofensa, mas em fazer aquilo que diz S. Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (3).
O perdão consiste em oferecer, a quem nos ofende, a possibilidade de um novo relacionamento connosco. Uma possibilidade, portanto, para ele e para nós, de recomeçar a vida, de ter um futuro em que o mal não prevaleça.
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete».
Como poderemos, então, viver esta Palavra?
São Pedro tinha perguntado a Jesus: «Quantas vezes devo perdoar (ao meu irmão)?».
E Jesus, ao responder, já estava a pensar, sobretudo, nos relacionamentos entre cristãos, entre membros da mesma comunidade.
Por isso, antes de mais nada, é com os outros irmãos e irmãs na Fé que temos de nos comportar assim: na família, no trabalho, na escola ou na comunidade de que fazemos parte.
Sabemos bem quantas vezes somos levados a retribuir a ofensa recebida com um acto, ou com uma palavra correspondente.
Sabe-se que, devido às diferenças de carácter, ao nervosismo, ou a outras causas, as faltas de amor são frequentes entre pessoas que vivem juntas. Pois bem, é preciso recordar que só uma atitude de perdão, sempre renovado, pode manter a paz e a unidade entre irmãos.
Haverá sempre a tendência de pensar nos defeitos dos outros, de nos recordarmos do seu passado, de pretender que sejam diferentes daquilo que são... É preciso criar o hábito de os ver com olhos novos e vê-los como se fosse pela primeira vez, aceitando-os sempre, imediatamente e de um modo sincero, mesmo que eles não se arrependam.
Vão-me dizer: «Mas isso é difícil». E compreende-se. Mas é aqui que está a beleza do cristianismo. Não é por acaso que somos discípulos de Cristo. Ele, na cruz, pediu ao Pai para perdoar àqueles que Lhe tinham dado a morte, e ressuscitou.
Coragem. Iniciemos uma vida assim, que é a garantia de uma paz nunca antes experimentada e de muita alegria, completamente desconhecida.
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida, Setembro de 1999, publicada integralmente em Città Nuova, 1999/15-16, p. 41; 2) Gn 4, 24; 3) Rm 12, 21.
Agosto 2010
"Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as
coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor" [Lc 1, 45]. (1)
Esta Palavra faz parte de um acontecimento muito simples, mas, ao mesmo tempo, altíssimo: é o encontro entre duas gestantes, entre duas mães, cuja simbiose espiritual e física com os seus filhos é total. Os filhos falam e sentem através das suas mães. Quando Maria fala, o menino de Isabel salta-lhe de alegria no seio. Quando fala Isabel, parece que as palavras lhe foram colocadas na boca pelo Precursor. Mas, enquanto as primeiras palavras do seu hino de louvor a Maria são dirigidas directamente à mãe do Senhor, as últimas são pronunciadas na terceira pessoa: «Feliz daquela que acreditou».
Assim, a sua «afirmação adquire um carácter de verdade universal: a bem-aventurança é válida para todos os crentes. Refere-se àqueles que acolhem a Palavra de Deus e a põem em prática, e que encontram em Maria o modelo ideal» (2).
«Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor».
É a primeira bem-aventurança do Evangelho que diz respeito a Maria, mas também a todos aqueles que a quiserem seguir e imitar. Em Maria, existe uma estreita ligação entre fé e maternidade, como fruto de ouvir a Palavra. E São Lucas, aqui, sugere-nos algo que tem a ver também connosco. Mais adiante, no seu Evangelho, Jesus diz: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática» (3). Quase a antecipar estas palavras, Isabel, movida pelo Espírito Santo, anuncia-nos que cada discípulo pode tornar-se "mãe" do Senhor. A condição é que acredite na Palavra de Deus e que a viva.
«Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor».
Maria, depois de Jesus, é aquela que melhor e mais perfeitamente soube dizer "sim" a Deus. Está sobretudo nisto a sua santidade e a sua grandeza. E, se Jesus é o Verbo, a Palavra que se encarnou, então Maria, pela sua fé na Palavra, é a Palavra vivida, embora sendo criatura como nós, igual a nós.
O papel de Maria como mãe de Deus é excelso e grandioso. Mas Deus não chama apenas a Virgem Maria a gerar Cristo em si. Embora de outra maneira, cada cristão tem uma função semelhante: a de encarnar Cristo até poder repetir, como São Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (4).
Mas como realizar isto?
Tendo a atitude de Maria em relação à Palavra de Deus, ou seja, tendo uma disponibilidade total. Acreditar, portanto, com Maria, que se irão realizar todas as promessas contidas na Palavra de Jesus e enfrentar, como Ela, se for preciso, o risco do absurdo que, às vezes, a sua Palavra comporta.
Grandes e pequenas coisas � mas sempre maravilhosas � acontecem a quem acredita na Palavra. Poder-se-iam encher muitos livros com os factos que o provam. Quem poderá esquecer quando, em plena guerra, acreditando nas palavras de Jesus «pedi, e ser-vos-á dado» (5), pedimos tudo aquilo de que precisavam muitos pobres na cidade, e vinham-nos trazer sacos de farinha, latas de leite em pó e de compota, lenha, roupas? Também hoje acontecem as mesmas coisas. «Dai e ser-vos-á dado» (6), e os armazéns da caridade continuam sempre cheios, mesmo se são esvaziados com regularidade.
Mas o que faz mais impressão é que as palavras de Jesus são verdadeiras sempre e em toda a parte. O auxílio de Deus chega pontualmente mesmo em circunstâncias impossíveis, e nos lugares mais isolados da Terra, como aconteceu há pouco tempo a uma mãe que vive numa grande pobreza. Um dia sentiu-se impelida a dar o último dinheiro que tinha a uma pessoa ainda mais pobre do que ela. Acreditava naquele «dai e ser-vos-á dado» do Evangelho. E sentiu uma grande paz no coração. Pouco depois, a sua filha mais nova mostrou-lhe um presente que acabara de receber de um parente idoso que, por acaso, tinha passado por ali: na sua mãozinha estava o dobro do dinheiro que ela dera.
Uma "pequena" experiência co-mo esta impele-nos a acreditar no Evangelho. E cada um de nós pode experimentar aquela alegria, aquela bem-aventurança que nos invade quando vemos realizadas as promessas de Jesus.
Quando, na vida de todos os dias, na leitura das Sagradas Escrituras, nos encontrarmos com a Palavra de Deus, temos que abrir o nosso coração e procurar ouvi-la, acreditando que aquilo que Jesus nos pede e promete se vai realizar. Depressa vamos descobrir, como Maria e como aquela mãe, que Ele mantém as suas promessas.
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida, Agosto de 1999, publicada em Città Nuova, 1999/14, p. 33; 2) G. Rossé, Il Vangelo di Luca, Roma 1992, p. 67; 3) Lc 8, 21; 4) Gl 2, 20; 5) Mt 7, 7; 6) Lc 6, 38.
Julho 2010
"O Reino do Céu é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas.
Tendo encontrado uma de grande valor, vende tudo quanto possui
e compra a pérola"[ Mt 13, 45-46]. (1)
Nesta breve parábola, Jesus consegue prender a atenção daqueles que o estavam a ouvir. Todos eles sabiam bem o valor das pérolas que, juntamente com o ouro, eram aquilo que havia de mais precioso, naquela época. Além disso, as Escrituras falavam da Sabedoria, isto é, do conhecimento de Deus, como de uma coisa que não se pode comparar «nem sequer às pedras preciosas» (2).
Mas, na parábola, vem em relevo o acontecimento excepcional, surpreendente e inesperado que foi aquele negociante ter descoberto, talvez num bazar, uma pérola que aos seus olhos experientes tinha um valor enorme. Com ela poderia, depois, obter um óptimo lucro! Foi por isso que, depois de fazer os seus cálculos, decidiu que valia a pena vender tudo o que possuía para comprar a pérola. E quem é que, no seu lugar, não teria feito o mesmo?
Eis então o significado profundo da parábola: o encontro com Jesus, ou seja, com o Reino de Deus no meio de nós � e aí está a pérola! �, é aquela ocasião única que temos mesmo que aproveitar, empregando inteiramente todas as nossas energias e aquilo que possuímos.
«O Reino do Céu é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Tendo encontrado uma de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola».
Não era a primeira vez que os discípulos se sentiam postos diante de uma exigência radical, isto é, diante daquele tudo que é preciso deixar para seguir Jesus: os bens mais preciosos, os afectos familiares, a segurança económica, as garantias para o futuro.
Mas, a Sua, não é uma exigência sem motivo ou absurda.
Por um �tudo� que se perde, existe um �tudo� que se encontra, infinitamente mais precioso. Todas as vezes que Jesus pede qualquer coisa, também promete dar muito, muito mais, numa medida superabundante. Assim, com esta parábola, garante-nos que vamos ganhar um tesouro que nos tornará ricos para sempre.
E, se pode parecer um erro deixar o certo pelo incerto, um bem seguro por um bem apenas prometido, pensemos no negociante da parábola: ele sabia que aquela pérola era muito preciosa e aguardou, confiante, o lucro que iria obter quando a vendesse. Da mesma maneira, quem quer seguir Jesus, sabe e vê, com os olhos da fé, qual é a enorme vantagem que vai ter ao partilhar com Ele a herança do Reino, por ter deixado tudo, ao menos espiritualmente.
Deus oferece a todas as pessoas, durante a vida, uma ocasião destas, para que a saibam aproveitar.
«O Reino do Céu é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Tendo encontrado uma de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola».
É um convite concreto a pôr de lado todos aqueles ídolos que podem ocupar o lugar de Deus no nosso coração: a carreira, o casamento, os estudos, uma linda casa, a profissão, o desporto, o lazer. É um convite para pôr Deus em primeiro lugar, no centro de cada nosso pensamento, de cada nosso afecto. Porque, na nossa vida, tudo deve convergir para Ele e tudo deve provir d'Ele.
Se assim fizermos, se procurarmos o Reino, segundo a promessa evangélica, tudo o resto nos será dado por acréscimo (3). Deixando tudo pelo Reino de Deus, recebemos cem vezes mais em casas, irmãos, irmãs, pais e mães (4). Porque o Evangelho tem uma nítida dimensão humana: Jesus é Homem-Deus e, juntamente com o alimento espiritual, dá-nos o pão, a casa, a roupa, a família. Temos, talvez, que aprender com as �crianças� a confiar mais na Providência do Pai, que não deixa faltar nada a quem dá, por amor, todo aquele pouco que possui.
Já há uns meses que, no Congo, um grupo de jovens fazia postais artísticos com a casca da banana, que depois eram vendidos na Alemanha. No princípio ficavam com tudo o que ganhavam (alguns mantinham a família com esse dinheiro). Depois decidiram pôr em comum 50% e, deste modo, 35 jovens desempregados receberam uma ajuda.
Mas Deus não se deixou vencer em generosidade: dois desses rapazes deram um tal testemunho na loja onde trabalhavam, que diversos comerciantes, em busca de pessoal, dirigiram-se àquela loja. E assim, onze jovens encontraram um emprego fixo.
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida , Julho de 1999, publicada em Città Nuova , 1999/12, p. 39; 2) Sb 7, 9; 3) cf. Lc 12, 31; 4) cf. Mt 19, 29.
Junho 2010
«Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á.
Aquele que a perder, por Minha causa, reencontrá-la-á» [Mt 10, 39]. (1)
Ao lermos esta Palavra de Jesus deparamo-nos com dois tipos de vida bem distintos: a vida terrena, que se constrói neste mundo, e a vida sobrenatural, dada por Deus através de Jesus. A vida sobrenatural não acaba com a morte e ninguém no-la pode tirar.
Diante da existência podemos, então, ter duas atitudes: apegar-nos à vida terrena, considerando-a como o nosso único bem (e seremos levados a pensar só em nós mesmos, nas nossas coisas, nas criaturas; a fechar-nos na nossa concha, e procurar afirmar o nosso "eu". No fim, como conclusão, vamos encontrar, inevitavelmente, apenas a morte). Ou, pelo contrário, acreditando que recebemos de Deus uma existência muito mais profunda e autêntica, podemos ter a coragem de viver de modo a merecermos essa dádiva, até ao ponto de sabermos sacrificar a nossa vida terrena pela outra.
«Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por Minha causa, reencontrá-la-á».
Quando Jesus proferiu estas palavras pensava no martírio. Nós, como qualquer cristão, se quisermos seguir o Mestre e permanecer fiéis ao Evangelho, temos que estar prontos a perder a nossa vida, morrendo � se necessário � até de morte violenta. E, com a graça de Deus, através dessa morte, ser-nos-á dada a verdadeira vida. Jesus foi o primeiro a «perder a sua vida» e a recebê-la de novo, glorificada. Ele avisou-nos previamente para não temermos «os que matam o corpo e não podem matar a alma» (2).
Hoje diz-nos:
«Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por Minha causa, reencontrá-la-á».
Se lermos atentamente o Evangelho, veremos que Jesus repete este conceito umas boas seis vezes. É uma prova do valor e da importância que Jesus lhe dá.
Mas a exortação a perder a própria vida não é, para Jesus, apenas um convite a suportar até o martírio. É uma lei fundamental da vida cristã.
É preciso estarmos prontos a não fazer da nossa pessoa o ideal da vida. Temos que renunciar à nossa independência egoísta. Se quisermos ser verdadeiros cristãos, temos de fazer de Cristo o centro da nossa existência. E o que é que Cristo quer de nós? Quer o amor pelos outros. Se assumirmos em nós este Seu programa, teremos a certeza de perder o nosso eu e de encontrar a vida.
Sem dúvida, este não viver para nós próprios não é, como se poderia pensar, uma atitude passiva ou de desistência. O empenho do cristão é sempre muito grande e o seu sentido de responsabilidade é total.
«Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por Minha causa, reencontrá-la-á».
Já nesta Terra podemos fazer a experiência de que, ao darmo-nos aos outros, vivendo no amor, cresce em nós a vida. Quando gastarmos o nosso dia ao serviço dos outros, quando soubermos transformar o trabalho quotidiano � talvez monótono e duro � num gesto de amor, experimentaremos a alegria de nos sentirmos mais realizados.
«Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por Minha causa, reencontrá-la-á».
E, se seguirmos os preceitos de Jesus, que são todos baseados no amor, depois desta breve existência, vamos encontrar também a Vida eterna.
Lembremo-nos de como será o julgamento de Jesus no último dia. Ele irá dizer aos da sua direita: «Vinde, benditos... Porque tive fome e destes-Me de comer...; era peregrino e recolhestes-Me; estava nu e destes-Me que vestir...» (3). Como condição para podermos participar na existência que não passa, Ele só vai ver se amámos o próximo e vai considerar feito a Si tudo o que tivermos feito ao nosso próximo.
Como viver, então, esta Palavra? Como poderemos perder, desde já, a nossa vida para a voltarmos a encontrar? Preparando-nos para o grande e decisivo exame para o qual nascemos.
Olhemos com atenção à nossa volta e enchamos os dias de actos de amor. Cristo apresenta-se a nós na esposa, no marido, nos nossos filhos, nos colegas de trabalho, de partido, de lazer, etc. Façamos o bem a todos. E não esqueçamos aqueles com quem travamos conhecimento todos os dias através dos jornais, dos amigos, ou da televisão... Façamos qualquer coisa por todos eles, segundo as nossas possibilidades. E, quando tivermos a impressão de ter esgotado todas as possibilidades, podemos ainda rezar por eles. O amor é a coisa mais importante.
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida, Junho de 1999, publicada em Città Nuova, n.º 10/1999, p. 43; 2) Mt 10, 28; 3) cf. Mt 25, 34 ss.
Maio 2010
"Aquele que Me ama será amado por Meu Pai,
e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele" [Jo 14, 21].
O ponto central do último discurso de Jesus é o amor: o amor do Pai pelo Filho e o nosso amor por Jesus, que significa cumprir os Seus mandamentos.
Para as pessoas que escutavam Jesus, não era difícil reconhecer nas Suas palavras um eco do Livro da Sabedoria: «Amar (a Sabedoria) é obedecer às suas leis» (2) e «os que amam a Sabedoria, descobrem-na facilmente» (3). Sobretudo, aquele "manifestar-Se a quem O ama", encontra um paralelismo no Antigo Testamento em Sab 1, 2, onde se diz que o Senhor Se revela «aos que não perdem a fé n'Ele».
Ora o sentido da Palavra, que propomos para este mês, é: quem ama o Filho é amado pelo Pai e é amado também pelo Filho, que se manifesta a ele.
«Aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».
Mas, para que Jesus se manifeste, é preciso amar.
Não se pode imaginar um cristão que não tenha esse dinamismo, essa força de amor no coração. Um relógio não funciona, não mostra as horas � e pode dizer-se até que nem é um relógio �, se não tiver corda ou pilhas. Assim um cristão, se não estiver sempre pronto a amar, não merece o nome de cristão.
Isto porque todos os mandamentos de Jesus se resumem num único: no preceito de amar a Deus e amar o próximo. E, em cada próximo, vê-se e ama-se Jesus.
O amor não é um mero sentimentalismo. Traduz-se numa vida concreta, no serviço aos irmãos � sobretudo àqueles que estão ao nosso lado �, começando pelas coisas pequenas, pelos serviços mais humildes.
Charles de Foucauld diz: «Quando amamos alguém, identificamo-nos plenamente com ele, identificamo-nos com o amor, vivemos nesse alguém com o amor; já não vivemos em nós, estamos "desprendidos" de nós, "fora" de nós» (4).
E é com este amor que a Sua luz, a luz de Jesus pode penetrar em nós, segundo a Sua promessa: «Àquele que Me ama... manifestar-Me-ei a ele» (5). O amor é fonte de luz: quando amamos, compreendemos melhor Deus, que é Amor.
E isso faz com que amemos ainda mais e aprofundemos o relacionamento com aqueles com quem contactamos.
Essa luz, esse conhecimento amoroso de Deus é, portanto, o sinal, a prova do verdadeiro amor. E podemos experimentá-la de várias maneiras. Porque, em cada um de nós, a luz assume uma cor, uma tonalidade diferente. Mas tem características comuns: ilumina-nos acerca da vontade de Deus, dá-nos paz, serenidade e uma compreensão nova da Palavra de Deus. É uma luz quente, que nos estimula a avançar pelo caminho da vida de um modo cada vez mais firme e rápido. Quando as sombras da existência tornarem incerto o nosso caminho, quando nos sentirmos até bloqueados pela escuridão, esta Palavra do Evangelho recordar-nos-á que a luz acende-se com o amor e que será suficiente um gesto concreto de amor, até pequeno (uma oração, um sorriso, uma palavra), para nos dar aquele fio de esperança que nos permite ir em frente.
Quando nós andamos de bicicleta, à noite, se pararmos, ficamos na escuridão. Mas, se voltarmos a pedalar, o dínamo fornecerá a corrente necessária para iluminar o caminho.
Assim acontece na vida: basta voltar a pôr em acção o verdadeiro amor � o amor que dá, sem esperar nada em troca � para reacendermos em nós a fé e a esperança.
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida, Maio de 1999, publicada em Città Nuova, n.º 8/1999, p. 49; 2) Sab 6, 18; 3) cf. Sab 6, 12; 4) Charles de Foucauld, Scritti Spirituali, VII, Ed. Città Nuova, Roma 1975, p. 110; 5) cf. Jo 14, 21.
Jesus pronunciou essas palavras por ocasião da morte de Lázaro de Betânia, que depois ele ressuscitou, no quarto dia.
Lázaro tinha duas irmãs: Marta e Maria.
Quando Marta soube que Jesus estava chegando, correu ao seu encontro e lhe disse: �Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido�. Jesus lhe respondeu: �Teu irmão ressuscitará�. Marta replicou: �Sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia!� Jesus, então, declarou: �Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê
em mim, jamais morrerá�.
�Eu sou a ressurreição e a vida.�
Jesus quer revelar quem ele é para o homem. Jesus possui o bem mais precioso que podemos desejar: a Vida, aquela Vida que não morre.
Se você leu o Evangelho de João, decerto observou que Jesus também disse: �Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo� (cf Jo 5,26). E já que Jesus possui a Vida, ele pode comunicá-la.
�Eu sou a ressurreição e a vida.�
Também Marta acredita na ressurreição final: �Sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia!�
Mas Jesus, com a sua afirmação maravilhosa, �Eu sou a ressurreição e a vida�, lhe revela que ela não precisa aguardar o futuro para ter esperança na ressurreição dos mortos. Desde já, no presente, para todos os que creem, ele é aquela Vida divina, inefável, eterna, que nunca morrerá.
Se Jesus está nos que creem, se ele está em você, você não morrerá. Essa Vida naquele que crê tem a mesma natureza de Jesus ressuscitado, e é, portanto, bem diferente da condição humana, na qual está.
E essa Vida extraordinária, que também já existe em você, se manifestará plenamente no último dia, quando você participar, com todo o seu ser, da ressurreição futura.
�Eu sou a ressurreição e a vida.�
É claro que, com essas palavras, Jesus não nega a existência da morte física. No entanto, essa morte não implicará a perda da Vida verdadeira. Para você, assim como para todos os homens, a morte continuará sendo uma experiência única, extrema e, talvez, temida. Mas não significará mais a falta de sentido de uma existência, não será mais o absurdo, o fracasso da vida, o seu fim. Para você, a morte não será mais uma morte de fato.
�Eu sou a ressurreição e a vida.�
E quando foi que nasceu em você essa Vida que não morre?
No batismo. Naquele momento você, mesmo em sua condição mortal, recebeu de Cristo a Vida imortal. Com efeito, no batismo você recebeu o Espírito Santo, que é aquele que ressuscitou Jesus.
E a condição para receber esse sacramento é a sua fé, que você declarou por meio de seus padrinhos. De fato, no episódio da ressurreição de Lázaro, falando a Marta, Jesus especificou: �Quem crê em mim, ainda que morra, viverá (...) Crês nisso?� (Jo 11,26)
�Crer�, nesse caso, é um fato muito sério, muito importante: não exige apenas aceitar as verdades anunciadas por Jesus, mas também aderir a elas com todo o ser.
Para possuir essa vida, portanto, você deve dizer o seu sim a Cristo. E isso significa aderir às suas palavras, aos seus mandamentos, significa vivê-los. Jesus confirmou isso: �Se alguém guardar minha palavra, jamais verá a morte� (Jo 8,51). E os ensinamentos de Jesus estão sintetizados no amor.
Portanto, você não pode deixar de ser feliz, em você está presente a Vida.
�Eu sou a ressurreição e a vida.�
Neste período em que nos preparamos para a celebração da Páscoa, ajudemo-nos a realizar aquela guinada � que é sempre necessário renovar � rumo à morte do nosso eu para que Cristo, o Ressuscitado, viva desde já em nós. Chiara Lubich.
�Em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: �Vai daqui para lá', e ela irá. Nada vos será impossível.� (Mt 17,20)
Quantas vezes na vida você gostaria de ser ajudado por alguém e ao mesmo tempo percebe que nenhuma pessoa pode resolver o seu problema! Então, quase sem perceber, você se dirige a Alguém que sabe tornar possível as coisas impossíveis. Esse Alguém tem um nome: é Jesus.
Ouça o que Ele diz a você:
�Em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: �Vai daqui para lá', e ela irá. Nada vos será impossível.�
É evidente que a imagem de �transportar montanhas� não deve ser tomada ao pé da letra. Jesus não prometeu aos discípulos o poder de realizar milagres espetaculares para impressionar o povo. De fato, se você investigar toda a história da Igreja, não encontrará nenhum santo, que eu saiba, que tenha transportado montanhas com a fé. �Transportar montanhas� é uma hipérbole � ou seja, um modo de dizer propositalmente exagerado � para incutir na mente dos discípulos a convicção de que, para a fé, nada é impossível.
Com efeito, todos os milagres que Jesus realizou, diretamente ou por meio de seus discípulos, sempre foram feitos em vista do Reino de Deus, ou do Evangelho, ou da salvação dos homens. Para esse fim, de nada serviria transportar uma montanha.
A comparação com �o grão de mostarda� indica que Jesus pede a você não uma fé maior ou menor, mas sim uma fé autêntica. E a característica da fé autêntica é apoiar-se unicamente em Deus e não nas próprias capacidades. Se você for tomado pela dúvida ou pela hesitação na fé, significa que a sua confiança em Deus ainda não é plena. Sua fé ainda é fraca e pouco eficaz, ainda se apoia nas suas forças e na lógica humana. Ao passo que a pessoa que se confia inteiramente a Deus deixa que seja Ele mesmo a agir e� para Deus nada é impossível.
A fé que Jesus pede aos discípulos é justamente essa atitude cheia de confiança que permite ao próprio Deus manifestar o seu poder.
E essa fé � esta sim, capaz de transportar montanhas � não está reservada a uma ou outra pessoa extraordinária. Ela é possível e obrigatória para todos os que creem.
�Em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: �Vai daqui para lá', e ela irá. Nada vos será impossível.�
Supõe-se que Jesus tenha dirigido essas palavras aos seus discípulos quando estava para enviá-los a pregar. É fácil desanimar e assustar-se quando se tem a consciência de ser um �pequeno rebanho� despreparado, sem talentos especiais, diante de multidões incalculáveis às quais se deve levar a verdade do Evangelho. É fácil desanimar diante de pessoas cujos interesses nada têm a ver com o Reino de Deus. Parece uma missão impossível.
É então que Jesus garante aos seus que, com a fé, �transportarão as montanhas� da indiferença, do desinteresse do mundo. Se eles tiverem fé, nada lhes será impossível.
Além disso, essa frase pode ser aplicada a todas as demais circunstâncias da vida, desde que estejam orientadas ao progresso do Evangelho e à salvação das pessoas. Às vezes, diante de dificuldades insuperáveis, pode surgir a tentação de não se dirigir nem sequer a Deus. A lógica humana sugere que não vale a pena, pois é inútil. Eis então a exortação de Jesus a não desanimar e a se dirigir a Deus com muita confiança. Ele, de um modo ou de outro, haverá de atender.
Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem» [Jo 10, 9]. (1)
Jesus apresenta-se como aquele que realiza as promessas divinas e as expectativas de um povo, cuja história está profundamente marcada pela aliança, jamais anulada, com o seu Deus.
A ideia da porta faz lembrar e explica-se melhor com outra imagem usada por Jesus: «Eu sou o Caminho, (...) Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim» (2) . Portanto, Ele é realmente um caminho e uma porta aberta para o Pai, para o próprio Deus.
«Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem».
O que é que significa, concretamente, esta Palavra na nossa vida? Há muitos conceitos que se podem deduzir a partir de outras passagens do Evangelho, relacionadas com o trecho de São João. Mas escolhemos a imagem da «porta estreita». Precisamos de nos esforçar por passar pela «porta estreita» (3) para entrar na vida.
Porquê esta escolha? Porque nos parece ser aquela que mais nos aproxima da verdade que Jesus diz de Si mesmo e a que melhor nos esclarece sobre o modo de a viver.
Quando é que Jesus se torna a porta totalmente aberta, de par em par, para a Trindade? É precisamente quando a porta do Céu parece fechar-se para Ele. Nesse momento, Ele mesmo torna-se a porta do Céu para todos nós.
Jesus abandonado (4) é a porta através da qual se realiza o intercâmbio perfeito entre Deus e a humanidade: tendo-se feito nada, une os filhos ao Pai. É aquele vazio (o vão da porta) que possibilita o encontro do homem com Deus e de Deus com o homem.
Portanto, Ele é, ao mesmo tempo, a porta estreita e a porta totalmente aberta. E nós podemos experimentar isso em nós.
«Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem».
Jesus no abandono tornou-se, para nós, um acesso ao Pai.
O que dependia d'Ele está feito. Mas, para usufruir dessa graça tão grande, cada um de nós deve também fazer o seu pequeno esforço, que consiste em aproximar-se daquela porta e passar para o outro lado. Como?
Quando formos surpreendidos por uma decepção, ou feridos por um trauma, uma desgraça imprevista ou uma doença absurda, podemos recordar sempre o sofrimento de Jesus, que personificou todas estas provações, e muitas mais.
Sim, Ele está presente em tudo aquilo que tem aspecto de sofrimento. Cada sofrimento nosso é um nome de Jesus.
Tentemos, então, reconhecer Jesus em todas as angústias e dificuldades da vida, em todas as trevas, nas tragédias pessoais e dos outros, no sofrimento da humanidade que nos rodeia. É sempre Ele, porque tomou sobre Si tudo isso. Basta dizer-Lhe, com fé: «És tu, Senhor, o meu único bem» (5) . Basta fazer qualquer coisa de concreto para aliviar os "Seus" sofrimentos nos pobres e nos infelizes, para atravessarmos aquela porta, e encontrarmos, do outro lado, uma alegria nunca antes experimentada, uma nova plenitude de vida.
Chiara Lubich
Janeiro 2010
*�Deus vai morar junto deles. Eles serão o seu povo.�
(Cf Ap 21,3)* *janeiro 2010*
�Esta é a morada de Deus-com-os-homens. Ele vai morar junto deles. Eles serão o seu povo,
e o próprio Deus-com-eles será seu Deus.�
A Palavra de Deus deste mês nos interpela. Se quisermos fazer parte do seu povo, devemos deixar Deus viver entre nós. Mas de que forma isso será possível e como fazer para desfrutar um pouco, antecipando já nesta Terra, daquela alegria sem fim, procedente da visão que teremos de Deus? Foi justamente isso que Jesus revelou; é precisamente este o sentido da sua vinda: comunicar-nos a sua vida de amor com o Pai, para que também nós a vivamos.
Nós, cristãos, podemos viver esta frase desde já e ter Deus entre nós. Para tê-Lo entre nós, são necessárias certas condições, como afirmam os Padres da Igreja. Para Basílio, é viver segundo a vontade de Deus; para João Crisóstomo, é amar como Jesus amou; para Teodoro Estudita, é o amor mútuo e para Orígenes, é o acordo de pensamento e de sentimentos a fim de alcançar a concórdia que �une as pessoas e contém o Filho de Deus� .
No ensinamento de Jesus está a chave para fazer com que Deus habite entre nós: �Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros� (Jo 13,34b). A chave da presença de Deus é o amor mútuo. �Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós� (1Jo 4,12) porque: �Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles� (Mt 18,20), diz Jesus.
�Deus vai morar junto deles. Eles serão o seu povo.�
Portanto, não está tão longe e não é inatingível o dia que assinalará a realização de todas as promessas da Antiga Aliança: �Minha morada estará junto deles. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo� (Ez 37,27).
Tudo isso já se realiza em Jesus, que continua, para além da sua existência histórica, presente entre aqueles que vivem segundo a nova lei do amor recíproco, ou seja, segundo a norma que constitui o povo de Deus como um povo. Essa Palavra de Vida é, portanto, um convite insistente, sobretudo para nós, cristãos, a testemunharmos com o amor a presença de Deus.
�Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos, se vos amardes uns aos outros� (Jo 13,35).
O mandamento novo vivido dessa forma coloca as premissas para que se atue a presença de Jesus entre os homens. Não podemos fazer nada, se essa presença não estiver garantida; presença que dá sentido à fraternidade sobrenatural que Jesus trouxe à Terra para toda a humanidade.
�Deus vai morar junto deles. Eles serão o seu povo.�
Mas cabe especialmente a nós, cristãos, mesmo pertencendo a diferentes comunidades eclesiais, dar ao mundo um espetáculo de um só povo composto por todas as etnias, raças e culturas, por adultos e crianças, por pessoas doentes e sadias. Um único povo sobre o qual se possa dizer, como se dizia dos primeiros cristãos:
�Vede como se amam e estão prontos a dar a vida uns pelos outros�.
É esse o �milagre� pelo qual a humanidade anseia para poder ainda ter esperança. (...) É um �milagre� que está ao nosso alcance, ou melhor, ao alcance Daquele que, morando entre os seus que estão unidos por meio do amor, pode transformar os destinos do mundo, levando a humanidade inteira à unidade.
/Chiara Lubich/ Esta Palavra de Vida foi publicada originalmente em janeiro de 1999